Eugenio Tavares.org Biografia e Obra    
 
Entrada do Sitio Contactos
 
Eugénio Tavares
Pesquisar EugenioTavares.org Notícias de eventos culturais relativos a Eugénio Tavares A Obra Factos biográficos

A Fuga para o Exílio

Já a noite tinha chegado à Baía da Furna, quando alguns pescadores deram pela presença de um navio sobre vela. Desembarcados em duas lanchas um contingente de tropas com cerca de uma vintena de homens perfilou-se e encaminhou-se para casa de Eugénio Tavares. Sitiada a casa de Eugénio, constataram a sua ausência. O poeta encontrava-se em casa dos seus compadres em Tomé Barrás, numa festa de aniversário. Aí se dirigiram e tentaram aprisionar Eugénio Tavares. Este num rasgo de sapiência trajou-se de mulher

Imagem de navio de guerra que ancorou na Baía da Furna para prender Eugénio, a mando do Governo Português

"Foi a 12 de Junho de 1900, por uma manhã formosíssima, céu alto, zebrado de longos flocos cintilantes, mar sereno, levemente picado, estendido num imenso pano de seda azul ponteado.

Ao centro, o lugre "B.A. Brayton" que largou do Porto da Furna, embarcou o Poeta na Baía da Fajã d'Água e o conduziu aos Estados Unidos

O lugre abriu suas largas velas ao nordeste carinhosamente fresco, e desfechou, canal abaixo, proa da América, do El Dorado da liberdade, Igualdade e Fraternidade. Esplêndida vela, leve sobre o mar, elegantemente inclinado, o navio voava, enquanto que o meu espírito voltava dolorosamente à realidade, e se retraía, e se obumbrava nessa indefinível opacidade calma, tranquila, profundamente dolorosa das grandes dores resignadas.

Na montanha bronzeada que nos ficava atrás, olhos tristes velados de lágrimas, que lágrimas que nenhum bálsamo consola, chorariam, porventura, fixos, humidamente fixos na esteira que o lugre ia deixando na tranquila superfície azulada.

As causas deste meu exílio, tu que me conheces, tu as sabes: foste testemunha das monstruosidades que emborcaram sobre o meu nome o córrego lodoso duma calúnia inaudita.

Começou tarde, mas sempre começou, entre nós, na atmosfera viciada da administração colonial, o desvendamento da Justiça. Desvendada ela, a Deusa, poder-se-á não mais escolher as vítimas, senão descobrir os criminosos.

Crente então na justiça de Deus, as mais estupendas, as mais mostruosas infâmias pareciam-me fatalidades orgânicas, dejectos da vida, detritos cuspidos pela máquina social no seu funcionamento.

À tardinha, quando o cinzento perfil da ilha se diluiu no roxo do horizonte, desci à câmara, estendi-me num beliche e me pus a revolver na ferida da minha dor o punhal lacerador da saudade."

Eugénio Tavares

Despedida

Dirás à minha pobre mãe, coitada!
Que me perdoe não ir, na despedida,
Beijar-lhe a grave fronte tão querida,
Beber-lhe o santo olhar, bênção sagrada,

Porque me traz esta alma tão quebrada
A dor inconsolável da partida
Que, triste como os que se vão da vida,
Nem quero ver-lhe a fronte magoada.

Dirás que levo uma saudade funda
dentro do coração angustiado!

Que a dor é tanta, em suma, tão profunda,
Que me parece, até ter começado
A morrer, neste lúgubre momento
Em que o navio esfralda asas ao vento.

Eugénio Tavares
12 de Junho, 1900


As tormentas da viagem de um exilado

"A viagem correu com alguma monotonia. Dentro do vácuo daqueles quentíssimos e intermináveis dias semelhantes a lapsos de vida, as mesmas velas inchadas de vento, o mesmo lamentoso ranger de aparelhos, as mesmas rítmicas badaladas da sineta tangendo horas a ré e à proa, o mesmo círculo de nuvens em cordilheira alvacentas fechando os horizontes, cambiando nas frouxidões crepusculares, em gradações de luz, numa magnífica fantasia de sombras, pelo céu, pelo mar.

Depois de doze dias de ventos largos, constantes, o barco numa só amura, graciosamente inclinado, rasgando sossegadamente as ondas, numa melopeia de arroios cantantes à proa; depois de doze dias com singraduras regulares de 200 a 240 milhas, caíram outros doze dias de absoluta calmaria, uma calma imensa, céu, às manhãs, de um azul intenso, o mar uma superfície estanhada em largos panejamentos leitosos ou cintilantes conforme a posição do sol, mosqueado de longe em longe por grandes rosas de sargaços, dando a impressão de uma face sarnenta, tediosa e profundamente pacífica.

Nesses dias, invadia-me, insensivelmente, muito de manso, como uma invencível sonolência, uma espécie de cansaço, de tédio, um desânimo suave, que me empolgava as faculdades e me lançava o espírito numa grande prostração.

Sentia-me, mau grado a austeridade da consciência serena, abandonado de toda a gente. Deus, semelhante a uma vida que se esvai, pouco a pouco, ausentava-se de mim. Assim como não havia nem uma aragem, nem um sopro sobre o mar, assim não havia nem uma esperança dentro do meu espírito torturado por aquela infantil perspectiva do desprezo de toda a gente.

Que ia eu fazer à América? Como, ali, preencher o vácuo que eu tinha no coração? Viver, com que recursos? Sofrer, com que ânimo? Lutar, com que forças? Que ia eu fazer à América???"

Eugénio Tavares

Informações adicionais

FACTOS HISTÓRICOS

Pela calada da noite do dia de Sta. Cruz, nos primeiros dias de Maio de 1900, um vaso de guerra enviado de Lisboa entrou na baía da Furna e desembarcou um contingente de marinheiros da Armada Portuguesa.

Um contingente de 30 ou 40 marinheiros, perfilou no cais e marchou os cinco quilómetros de distância, atingindo a Vila Nova Sintra e sitiando de imediato a casa do poeta Eugénio Tavares. Visavam prendê-lo e conduzi-lo a Lisboa.

Depois de uma busca infrutífera, concluíram que o poeta se encontrava em Nossa Senhora do Monte, numa festa em casa do seu compadre Nhó Lepeu. Dirigindo-se de imediato para lá, sitiaram a casa de Nhó Lepeu, mas não encontraram o poeta.

Aconteceu que enquanto armavam a cilada e preparavam o cerco à casa do Nhó Lepeu, por entre eles passara uma mulher esgueirando-se na paisagem e desaparecendo na escuridão da noite.

Essa mulher velhinha, de lenços à cabeça, saias compridas e cachimbo, à maneira da época, que desaparecera na paisagem era nem mais nem menos EUGÉNIO TAVARES.

Decorridos alguns dias o Poeta não voltou a ser localizado nem encontrado na Ilha Brava. A 1 de Junho, pelo raiar da madrugada, Eugénio embarcou na Barca B. A. Brayton e refugiou-se nos Estados Unidos.

* * *

A LENDA DO VELHO SAMUEL DA FURNA 

Estamos a um de Junho de 2000, já no novo século XXI. Decorreram cem anos sobre o acontecimento, mas na memória do seu povo ecoa ainda a tragédia que desabou sobre a figura de Eugénio Tavares.

Sentados na Pedra Larga, na Baía da Furna, o velho Samuel de setenta anos, esperou pela tardinha para narrar, com dramatismo, como o seu avô lhe contou a tentativa de prisão de Eugénio Tavares, ocorrida a 3 de Maio de 1900 - dia di Nhó Santa Cruz. O avô, Nhó Djon Lupeta, era faroleiro no cais da Furna. Segundo Nhó Djon Lupeta, a noite caíra já na Baía da Furna.

Uma dúzia de veleiros baloiçava nas águas mansas da baía e alguns até tinham os faróis acesos. A tripulação dormia e a população em terra também se recolhera às suas casas. Sons, somente das amarras que chiavam nos gonzos ou duma onda mais embalada.

No Cais permanecia apenas o velho avô de Samuel, que tinha acabado de acender o lampião de petróleo, única iluminação pública existente em todo o povoado. Ele afirma ter sido a única pessoa que escutou o largar da âncora de um navio, que mal se via na névoa da noite. Sobre máquina ou sobre vela, duas lanchas tocaram na água enquanto se enchiam de homens fardados.

O velho lobo-do-mar, escondido atrás de um pequeno bote, assistiu ao desembarque. Eram cerca de trinta Marinheiros da Armada Portuguesa, talvez quarenta, que, perfilados, marcharam os cinco quilómetros até à Vila Nova Sintra sitiando de seguida a casa do poeta.

Não o tendo encontrado em casa, debandaram pela vila à sua procura, sem nunca terem chegado a encontrá-lo. Depois de uns dias de permanência no porto, o barco abandonou a Furna sem que os marinheiros tivessem conseguido prender Eugénio Tavares. Cem anos depois o povo não esqueceu a perseguição ao seu Poeta, ao seu Nhó Tatai.

 

 

Página anterior  Topo  Página seguinte
Biografia  Obra  Contactos  Notícias  Pesquisar
© 2004-2013 Todos os direitos reservados | Eugénio Tavares.org